O brasileiro ingere cada vez mais produtos lácteos, mas a tendência natural é que a intolerância à lactose aumente ao longo da vida.
O consumo de leite vem aumentando nas últimas décadas no Brasil. De 1981 até hoje, a ingestão per capita cresceu 75%, chegando a 165 litros anuais, em torno de 450 ml diários, segundo dados recentes divulgados pela AssociaÂção Brasileira de Produtores de Leite. Apesar dos benefÃcios da inclusão de produtos lácteos na dieta, o maior consumo de leite trouxe um efeito colateral inesperado: a intolerância à lactose. O problema atinge 50% das pessoas, segundo estimativas de uma pesquisa norteamericana citada pela alergologista Loraine Landgraf, diretora regional da Sociedade Brasileira de Alergia e ImunopatoÂlogia.É cada vez mais comum encontrar pessoas que, com o passar do tempo, desenvolvem uma sensibilidade ao leite que rende cólicas, gases e diarreias. A explicação, segundo a médica pediatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sheila Nogueira, é que a diminuição da tolerância à lactose - que é o açúcar do leite - aparece quando a produção da enzima lactase, responsável por sua digestão, começa a cair. "Para poder ser absorvida pelo organismo como glicose, a lactose precisa ser quebrada por essa enzima, produzida em quantidade suficiente apenas até os 3 anos de idade", diz ela. O problema surge, segundo a pediatra, no ser humano por ser o único mamÃfero que continua tomando leite mesmo após tornar-se adulto.
Comprimido
Mas como conciliar a recomendação de consumir leite - fonte de proteÃnas, vitaminas e cálcio - à intolerância natural progressiva ao produto? Scheila afirma que há duas formas de combater o problema. Uma, reduzindo a ingestão de leite e fazendo as devidas substituições nutricionais. Outra, lançando mão de medicamentos que atuam como a enzima lactase no organismo.
Esta foi a medida a qual a advogada Mariliz Müller teve de recorrer para poder comer queijo, uma de suas paixões, depois de diagnosticada a intolerância à lactose, há sete anos. Requeijão, ricota e outros tipos de queijo sempre estiveram no cardápio dela.
Segundo a alergologista Loraine Landgraf, quem é intolerante e não quer nem abandonar os produtos lácteos nem passar pelo mal-estar dos seus sintomas, deve ingerir a lactase sempre, pelo menos meia hora antes de consumir leite ou seus derivados. "A dose varia em relação ao grau de intolerância que a pessoa apresenta e a quantidade de lactose que ela vai ingerir", diz.
Mariliz não teve problemas em adaptar sua dieta, contudo as restrições - provenientes também de ser vegetariana - causam algumas saias-justas. "Quando me convidam para jantar, digo que sou vegetariana, então a carne costuma ser substituÃda por uma massa com queijo. Explicar que, além disso, tenho intolerância à lactose é complicado. Por isso tomo a lactase, que facilita minha vida", diz ela. Por mês, Mariliz gasta cerca de R$ 120 com o suplemento, mas ela vê o lado positivo da restrição: a adesão a hábitos alimentares mais saudáveis. "Todas as noites eu costumava comer sanduÃche com queijo. Depois do diagnóstico me obriguei a ter uma variedade maior de alimentos como substitutos, como patê de tofu e salsicha de soja. Foi uma mudança positiva, senão eu passaria a vida toda comendo queijo quente", brinca.
Importância
Ainda que a função do leite como fonte de cálcio para o organismo seja importante, a máxima de não exagerar também vale para esse produto. "Ele é um complemento na alimentação, mas não nos dá todos os nutrientes de que precisamos", diz a professora de Nutrição Gisele Pontaroli Raymundo, da PontifÃcia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Segundo ela, o consumo deve obedecer ao perÃodo de digestão de no mÃnimo duas horas após uma refeição. Se consumido logo após o almoço, o leite impede a absorção adequada de ferro presente em vegetais como o feijão. Entre desnatados ou integrais não há vilões, pois até mesmo a gordura - presente em maior quantidade no integral - tem um papel a cumprir, principalmente na dieta infantil. "A criança não deve tomar o desnatado, pois ela precisa da gordura como fonte calórica e de ácidos graxos. Entretanto, quem tem colesterol alto deve escolher essa opção."
Não importa se o leite é integral ou desnatado quando o assunto é a intolerância. Isso porque a presença ou a ausência de gordura não interfere no aparecimento dos seus sintomas, pois a lactose está presente em ambos os produtos. "Quem é intolerante tem de tomar leite com baixa lactose ou sem este açúcar", reforça Loraine.
Acima de um ano
Mesmo com tantos benefÃcios, o consumo do produto deve ser restrito a crianças acima de 1 ano, por ter mais proteÃna e sal e menos vitaminas e outros nutrientes que o leite materno.
Fonte: O Leite






